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Correspondência Trocada II

by em 22/11/2011

O projecto de troca de cartas entre reclusos do Estabelecimento Prisional do Linhó e poetas de várias cidades da Europa e Mediterrâneo está a entrar na sua fase mais produtiva.

A inclusão de textos de poetas estrangeiros acrescenta vários pormenores ao processo, a distância do interlocutor, o contexto, a cultura e o idioma do destinatário que queremos contactar.

Vamos falar um pouco de outra autora que publicamos.

Glorjana Veber – Poeta, editora e fotógrafa Eslovena, nasceu em 1981 em Celje.
Está a terminar o doutoramento em Ciência Política na Universidade de Ljubljana.
É fundadora e directora do Instituto de Pesquisa Cultural IRIU, com vários projectos culturais relacionados com a poesia e a performance, na Eslovénia e noutros países como Israel, Rússia, França, Sérvia e Bósnia Herzegovina.
Os seus poemas encontram-se traduzidos e publicados em várias revistas literárias.

 

sem título
Tu és um homem com uma cortina branca debaixo de uma parede branca de pensamentos brancos. Dentro de ti uma voz branca para um poema branca numa mão branca…, um abraço branco. Dentro de ti uma formiga branca caminha, uma criatura pequena de olhar branco. Uma formiga, a agonia do prisioneiro de neve, que entregou as chaves do seu olhar, paisagem desabitada, bochechas sem sangue, um abanar de cabeça e a multidão de pulso vermelho a correr durante o sono. Brancura, tu corres com o teu pé preso numa pedra entre os ramos de fumo, com a terra afastada para trás de um único elemento, através da muralha, com uma estátua de solidão Tu corres, tu ficas, porque nós, cá fora, também queríamos, viver no crepitar das chamas para o único elemento.
Tão próximos que sentimos frio.

Glorjana Veber

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Formigas brancas

É preciso civilizar os pequenos animais
e as plantas, não se pode permitir
que cresçam ervas daninhas na prisão
Há jardins próprios para isso

Agora tenho um pé engessado
e os pensamentos ao peito

Tiago Patrício

 


Eu derramo um poema sobre ti

Eu canto com as músicas do meu silêncio
o meu país que me perdoe
pelo sangue que agora me corre pelo teu asfalto
Eu canto para ele não ter medo na sua solidão
e abraço as minhas asas, escondendo-as dentro dos ramos
o teu céu elevou a sua faca acima da minha voz quebrada
Do Ré Mi / Fá Sol La / Si Do Ré

E eu canto com uma voz terrível em frente ao rosto dos teus soldados
Perdoa-me por te amar mais do que em pensamento
Soldados! Libertem o meu cadáver;
Temo pelas palavras presas debaixo da minha língua em cativeiro
pelo meu sonho ser esmagado pelos teus bastões

Minha mulher, foge pelas janelas do meu coração …
Perdoa-me por seres a mais bela
a poesia torna-se amarga nos meus lábios
O meu beijo é uma tragédia de um tom doloroso …
Eu ordeno-vos, soldados: Parem!
Vou atingir-vos a todos, um por um com as minhas canções
A minha música feita de seda
Do Ré Mi / Fá Sol Lá / Si Do Ré

Omar Hazek (Alexandria – Egipto)



Treino

A chávena de chá geme
de um frio repentino nos lábios

Os olhos fixos
o pescoço inclinado
e um aperto no coração
enquanto as antigas conversas corriam pelo quarto

Ele ainda não era um morto
ele era um vivo a treinar para ser morto
como a flor sobre a mesa

Atrás da janela
as vozes da guerra acordam
e as nuvens caem no mar do arrependimento
e os marinheiros afogados
procuram um verão e gaivotas
nos destroços dos navios.

Abdelwahhab Azzawi (Síria)

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