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19.10.11 no Bairro da Boavista

by em 11/11/2011

Tantas vezes me pergunto se irei no caminho certo, se este projecto fará sentido e é sentido no Bairro da Boavista. Qual o sentido para estes jovens conhecer os moradores e aqueles que pelo Bairro da Boavista passam e que nele habitam e co-habitam? Há dias que estas interrogações me perseguem, e os medos de falhar perante o Bairro da Boavista falam mais alto… Este era um desses dias…

Com dúvidas, fui até ao Bairro da Boavista, que sempre me acolhe como membro e vivente desse espaço, dessas ruas, desses locais…

A tarde começava com os ânimos frios… O grupo hoje composto por Cinara, Núria e João Lapa estava sem vontade de descoberta… Mas, incentivando-nos mutuamente, lá fomos os quatro para mais um dia de deambulação “dectetivesca” pelo Bairro da Boavista!

E quem diria que no dia em que os medos surgem, é nesses mesmos dias que as certezas assentam numa construção cada vez mais sólida!

“Quem vamos entrevistar hoje Joana?”, “Quem falta conhecermos?”… Núria, com os seus sábios conhecimentos do Bairro, propunha nomes, personagens, habitantes. João Lapa contrapunha e dizia “Ai que seca, esse não!!”. Cinara, sempre com vontade de fazer, dizia “Aiiiii, vamos embora!! Vamos lá entrevistar!”. E assim, depois de alguma discussão, João Lapa afirmava de forma decisiva e pertinente: “Vamos entrevistar a Sofia do Cabeleireiro, hoje sou eu que decido!”.

Perante tamanha decisão afincada, lá fomos nós para o pré-fabricado, agora pintado de branco com as suas janelas
cor-de-rosa, que convida qualquer um a entrar e deliciar-se à conversa com Sofia.

Ângela Sofia, mais conhecida como Sofia, nasceu no Bairro! Os seus pais, pertencentes à 1ª geração do Bairro da Boavista, criaram-na no seio desta comunidade tão amada por todos os seus moradores mais antigos. E é como pertencente e amante deste Bairro que Sofia contou as suas histórias de infância: em tempos que lá vão, o Bairro da Boavista acolhia uma grande festa de Carnaval, com concurso de máscaras. Sofia, na altura uma gaiata, conta como revolucionou o Carnaval na Boavista com a sua máscara de múmia, origem do Baile de Múmias que posteriormente aconteceu no Bairro. Os jogos de futebol entre mulheres casadas e solteiras, com Sofia à baliza não foram esquecidos. E a essência do Bairro não ficou atrás: “deixávamos as chaves na porta, todos deixavam as chaves na porta, éramos uma família! Dava gosto dizer eu moro no Bairro da Boavista!”. Cinara reforçou com a sua interjeição “Ah, também jogava Sirumba?!”- os tempos mudam mas há sempre algo que se mantém imutável, constituindo-se as pontes geracionais do Bairro da Boavista não distantes mas interligadas! Sofia relembrou como se tornou cabeleireira e com todo o orgulho falou deste seu espaço que é seu, que é do Bairro! Ficamos a saber que João Lapa foi a cobaia de Sofia, em penteados masculinos de desenhos no cabelo. Que orgulhoso ficou de saber-se pioneiro no Bairro pelas mãos de Sofia nesta arte dos cabelos! A entrevista acabou com as lágrimas nos olhos de Sofia, a falar do seu pai agora com 70 anos e doente com Alzheimer. Cá fora estes três Jovens não foram indiferentes a estas lágrimas e das suas bocas saiu: “Oh Joana, o Pai da Sofia era mesmo querido e agora já está de cadeira de rodas! Era um senhor cheio de vida, o que é Alzheimer Joana??”. De Sofia não nos iremos esquecer do sorriso sempre meigo com que relembra o seu Bairro da Boavista!

As entrevistas não acabavam por aqui… Depois de Sofia, João Lapa quis ir jogar, e as duas meninas e eu lá continuamos na nossa busca! E nada como encontrar pelo caminho, o grande morador, o sempre bem-disposto Joaquim! Grande conhecedor do Bairro, não conseguiu escapar aos pedidos de companhia por parte destas duas meninas do bairro! E assim Joaquim lá nos acompanhou o resto da tarde, coordenando-nos na deambulação pelo Bairro.

O Sr. Petrolino, como é conhecido no Bairro da Boavista, tem 72 anos e é o vendedor ambulante do Bairro da Boavista! Há 55 anos que trabalha neste bairro e entre brincadeiras e gargalhadas contou-nos a sua história de vida. Desde os 18 anos que por cá passa nas suas vendas: “Gosto muito de trabalhar aqui, já estou é velho!”. Núria retorquia “Não está assim tão velho!!”.. “Pois não, ainda rompo as meias solas!”. “Eu não tenho sítio, vou para qualquer lado!”. Quem o vê chegar na sua carrinha branca carregada com as marcas do tempo, nem imaginaria o mundo que lá transporta: “Vinho, queijos, chouriços, mercearias, ovos, tremoços, azeitonas, azeite, vinagre, álcool, sabão, esfregão, lixívia, potassa, cera, sal, palha de aço, massas miúdas, recortadas ou em meadas” – assim apresentava o Sr. Petrolino, em jeito de anúncio publicitário da rádio dos anos 50. “Sabe tudo de cor?!”, dizia Cinara espantada, e Núria completava “Credoo! É assim tanta coisa?!”. Antes desta carrinha apetrechada com tudo o que é necessário para as suas vendas, tinha uma carroça e era com o seu cavalo que chegava ao Bairro da Boavista, transportando bilhas de azeite para distribuição nas mercearias, bem como petróleo num alambique e medidor. Conta orgulhoso que continua a ter os seus fregueses fixos e habituais, e que as suas vendas vão até Algés. Em relação aos fregueses do Bairro, com os seus olhos azuis brilhantes, Sr. Petrolino afirma: “Tenho aqui fregueses mais que família. A mãe dele (do Joaquim que nos acompanhava) gastou muito vinho!”. E sempre bem disposto, quando pedida autorização para fotografar, o Sr. Petrolino respondeu: Pode, mas eu já sou casado!”. Joaquim ajudava na entrevista e alertava: “O Petrolino tem dois filhos fadistas, o Carlos Graça e o Luís Graça”. Núria não desistiu até que o Sr. Petrolino nos deliciasse com um pouco de Fado: “Cante lá, vá lá.. só um bocadinho… uma quadra!”. E após uma degustação do seu próprio vinho, Carlos Petrolino cantava assim:

“ Eu hei-de cantar, hei-de rir
Hei-de ser muito alegre,
Hei-de mandar a tristeza para o diabo que a leve!”.
A entrevista acabou com um sorriso na alma quando Sr. Petrolino afirmou com grande vivacidade: “Só agora quando morrer é que deixo isto!”. E Núria finalizava “Ainda falta muitos anos para isso!”. “Muito obrigada meu amor!”.

O dia caia, as entrevistas por hoje chegavam ao fim, e as três com a companhia do Joaquim regressámos ao Ser Maior…

O brilho de cada entrevistado/morador, o seu amor pelo Bairro, pelo nosso bairro, o livro de histórias para contar, a alma do bairro da Boavista enche-me em cada regresso ao bairro, e assim o projecto se desenha, é desenhado, é vivido e experimentado.

Obrigada Sofia, obrigada Sr. Petrolino, obrigada Joaquim por esta tarde!

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