Correspondência trocada – Estabelecimento Prisional do Linhó
Comecei por propor uma troca de correspondência entre um certo número de pessoas do EP Linhó e um conjunto de pessoas do exterior, poetas e músicos, portugueses e estrangeiros, homens e mulheres.
Quero aproveitar também para falar da escrita e do que pode acontecer a quem escreve quase todos os dias, porque pela palavra é possível dar resolução ao irresolúvel, chegar à solução de teoremas, descrever objectos impossíveis e sobreviver nos limites da razão, mas sem desaparecer como observador.
Estes são os primeiros textos preparados antes do projecto começar, agora vamos aguardar por um pequeno texto, escrito nas horas vagas ou no silêncio da noite, onde dirijam a alguém uma carta urgente e que possa funcionar como o princípio de um diálogo. Pode ser uma descrição do que vêem pela janela de manhã, de algum dos objectos pessoais ou de um episódio da infância. Podemos e devemos entrar pelas zonas da imaginação e do falso, conversar sobre a noite mais longa, sobre uma viagem impossível ou até da última vez que fomos ao futebol e descrever a mais bela jogada que vimos, com a bola a acabar por bater na trave da baliza adversária.
As cartas terão uma resposta todas as semanas e no final de Novembro haverá uma selecção, feita por todos, de alguns textos e serão lidos e apresentados numa cerimónia com vários convidados.
Choro
Estou só na minha cama
com um choro nas minhas costas
sou eu
sim, sou eu quem chora
Sonho com a mão
que acena ao longe
na parede
Abdelwahhab Azzawi (Síria)
26908
há palavras demasiado
cruéis quando são ditas
em tempos de espera.
as respostas ansiadas
tardam na volta e já
alguma coisa se esqueceu
quando por fim no-las devolvem.
depois rondamo-las
fazemos um cerco apertado
quando já perderam
o seu caminho certo. metem-se
na cama da imaginação
puxam bem os lençóis
ficamos surdos aos gestos
que acompanham essas mesmas palavras
11008
gostaria de ser o bom filho, aquele
nas fotografias de sorriso sempre
posto, de corpo forte e orgulhoso.
mas de manhã à noite
convivo com este outro, fraco
defeituoso, cheio de promessas
nunca cumpridas.
Benjamim Machado (Portugal)
esfera
uma daquelas
esferas de vidro
em negativo
a mão fechou-se sobre ela
fê-la girar
neve a fingir
caiu sobre meninos bonecos
tingiu-lhes a roupa
entrou por portas escancaradas
de casas mínimas
com os seus telhados alinhados
castanhos
taciturnos
uma cidade vista de uma encosta
daquelas que avistamos
ao chegar ao topo de uma colina
gritamos uns pelos outros
o mais alto que podemos
somos
só
feridos pelo nosso próprio eco
a mão ao de leve
puxou uma pena do casaco
tentaste sair pela porta do quintal
o cão guardou a tua sombra
no te denunciou
deixou que passasses
semicerrando os olhos
encolhendo a cabeça entre as patas
assim entras na casa a horas tardias
e sais sem que ninguém te note
levas no bolso
cartas que ainda te enviam
livros que não queres que fiquem aí
o teu próprio eco
atravessa esses lugares
a tua cabeça
emerge numa janela
observa-te disfarçadamente
estas coisas
as palavras confinam-nas
alojam-nas
em caixas
em folhas de papel
pisadas por uma pedra
em que alguém desenhou
delicada borboleta
um desenho de repente pesa-nos
asas azuis
insecto preso
uma cidade presa
feita
que imita outra coisa
virando a esfera
cairá sobre ela neve
um homem de olhos amendoados
escalará a muralha
espiará a tua cidade mínima
da colina
com um arco fará pontaria
aos teus meninos de brinquedo
que brincam na rua
um rapaz espiando-o de um ponto mais acima
forçá-lo-á a adormecer
tombar na lama
com o arremesso de uma pedra escura
o melhor batedor dos yankees
e o seu corpo imenso tombará entre a neve que cai
um vento gelado
agitará ao de leve os seus cabelos
um fio vermelho muito escuro
correrá no chão castanho e branco
de entre os ramos um falcão solta-se
sai da esfera
vem pousar no teu punho
uma maçã apodrecida
tomba
pálpebra que se fecha
na terra
ao longe adivinhas
o murmurar do poço
o balde que sobe
puxado por uma roldana que chia
as coisas estão ligadas
presas pelo fio da narrativa
adivinhas o seu passar silencioso
no alpendre
escutas passos
que se aproximam
procuras
dentro da água escura
dos seus olhos
o teu reflexo
procuras puxá-lo
desse precipício
com a força dos braços
e ele resvala
é o falcão pousado
no punho
o leal embaixador da corte
que te trouxe
em segredo
uma mensagem importante
as histórias
por vezes
são isto
tentas ver-te
no nevoeiro
puxar-te
por uma corda ténue
o teu peso sustentado
por uma roldana que o tempo
fez perra
enferrujou
uma corda que é o último laço
cujo peso nunca saberás
se poderá ser sentido
no teu pescoço
a esfera quebrada no chão
cidade pesada na noite
a neve contra a janela
o corpo corda suspensa
da sua arte de silêncios
Tatiana Faia (Portugal)